quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Donald Trump é Democrata ou Republicano?

[NOTA: todas as traduções dos trechos de artigos e reportagens que reproduzo aqui são de minha autoria.]


No site The Hill, no último mês de julho, lemos o seguinte:
“Provavelmente, eu me identifico mais como um Democrata” disse Donald J. Trump alguns anos atrás durante uma entrevista para a CNN. Nessa mesma entrevista, ele defendeu a opinião (ele faz muito isso) de que “Parece que a economia caminha melhor sob o comando dos Democratas do que dos Republicanos”. Ele confirmou suas opiniões alguns meses atrás no programa “Morning Joe”, da MSNBC, quando disse ‘Em algumas coisas, me identifico como um Democrata”.
Tempos antes, ele criticou os Republicanos como “direitistas demais”.

Essas não são apenas gafes isoladas, pois ele mantém a coerência com o que disse desde essa entrevista. Seria Donald Trump um criptodemocrata?

Não há dúvida de que ele tem colocado seu dinheiro onde diz que colocará. Até alguns anos atrás, os Democratas foram os principais beneficiários de suas doações políticas, antes de ele começar a doar para os Republicanos (falo disso mais adiante).

Ele teceu loas e broas aos Clintons e abriu sua carteira para eles.

Em 2007, Hillary Clinton estava costurando apoios para sua campanha presidencial, e Trump declarou que confiava nos talentos dela: “Hillary sempre se cercou de gente muito boa. Eu acho que Hillary faria um bom trabalho” ao prever que ela conseguiria uma boa negociação com o Irã. Ela era, segundo Donald, uma “mulher extraordinária”.

Ariel Cohen, do Washington Examiner, escreveu: “Trump e os Clintons têm um passado ‘íntimo’”:
Bill e Hillary compareceram ao casamento de Trump com Melania Knauss em 2005. Uma foto mostra os dois casais de braços dados, rindo e gesticulando. Trump e Hillary Clinton aparentam uma cordialidade especial. Ela teria comparecido à cerimônia de casamento, enquanto Bill compareceu apenas à recepção.
As filhas de Trump e Clinton, Ivanka e Chelsea, também seriam amiga, apesar da briga dos seus pais na campanha. Ivanka, vice-presidente do império empresarial de seu pai, e Chelsea, comandante da Fundação Clinton, são vistas juntas com frequência em Nova Iorque.
Mas a relação não é apenas pessoal. Trump doou entre U$100.000 e US$250.000 à Fundação Clinton, segundo o cadastro das organizações sem fins lucrativos. Em quatro ocasiões diferentes, Trump fez doações a Hillary Clinton, em 2002, 2005, 2006 e 2007.
Trump também doou indiretamente à campanha de Clinton ao Senado, devido a uma doação de US$125.000 de Trump ao Comitê de Campanha Democrata do [Estado de] Nova Iorque.
Será que Trump consegue mandar esse “passado íntimo” para o buraco da memória?

Sua generosidade se estendeu a outros Democratas além dos Clintons. Na verdade, suas doações políticas beneficiaram principalmente os Democratas até ele, aparentemente, ter uma idéia: o que dar a um bilionário que já tem de tudo? Que tal mudar da Trump Tower para o Salão Oval?

Ele via a perspectiva de uma candidatura à presidência em seu futuro? Ele queria lançar as bases desse plano, se cacifar e acobertar seu apoio de tempos atrás aos Democratas? A cronologia é suspeita. Ele mudou o fluxo de suas doações em 2010 para favorecer mais os Republicanos. Ele é um incorporador imobiliário e, sem dúvida, se sente à vontade em começar um projeto anos antes de sua materialização, pois os investimentos em projetos desse porte começam muito antes.

Poderia isso camuflar suas antigas opiniões, que, aparentemente, vieram diretamente das plataformas do Partido Democrata durante anos?

Não há dúvidas de que ele sustentou opiniões que, num estudo cego com sem exibir a marca “Trump”, levaria as pessoas a supor que ele era um Democrata.

Em várias ocasiões ele apoiou a nacionalização do sistema de saúde, inclusive recentemente, quando ele equivocadamente declarou que o sistema de contribuinte individual do Canadá funciona e deveria ser copiado pelos Estados Unidos.

Ele apóia o aumento de impostos, supostamente apenas para os ricos, mas, se a História ensina alguma coisa, aumentos de impostos geram mais aumentos de impostos e para um número maior de pessoas. Além disso, ele apoiou um imposto de 14,25% sobre fortunas, além do aumento no imposto de renda. Esse imposto, sozinho, teria sido responsável pelo maior aumento de impostos da história dos EUA. Não parece a realização do sonho dos Democratas?

Até poucos anos atrás (2012), Donald Trump era favorável à imigração, e eu traduzo textualmente um trecho de um artigo do The Corner sobre o assunto:
O Partido Republicano continuará perdendo eleições presidenciais se ele se apresentar como um partido mesquinho e hostil para as pessoas de cor, afirmou Donald Trump à Newsmax. Segundo Trump, os comentários e as políticas de Mitt Romney e outros candidatos Republicanos durante esta eleição, intencionais ou não, foram considerados por latinos e asiáticos como hostis em relação a eles. “Os Republicanos não tinham nada favorável a eles em relação aos latinos e aos asiáticos (...)”
A solução de Romney, de “autodeportação” para os estrangeiros ilegais não fazia sentido e insinuava que os Republicanos não se importam com os latinos em geral, segundo Trump. “Ele tinha uma política maluca de autodeportação, que era pura loucura”, afirmou Trump. “Parecia tão ruim quanto era, e ele perdeu todos os votos dos latinos”, observou Trump. “Ele perdeu o voto dos asiáticos. Ele perdeu todos os que têm vontade de vir para este país”.
Esses argumentos são muito semelhantes aos dos Democratas.

Ele também era um entusiasta da proibição total de armas ofensivas. Isso sempre esteve na pauta do Partido Democrata.

Os conservadores religiosos podem se opor ao seu apoio à legalização das drogas em outras ocasiões.

Os Democratas estão entre as pessoas menos religiosas dos EUA. Aparentemente, Donald Trump tem muito pouca noção dos valores e das virtudes judaico-cristãos. Os cristãos evangélicos podem se pegar nesse aspecto do passado e das crenças de Trump. Jennifer Rubin escreveu no Washington Post no final do ano passado:
Os evangélicos têm muitas razões não gostar de Trump — seus vários divórcios, seus cassinos, sua linguagem grosseira e seus ataques à liberdade religiosa, para mencionar apenas alguns. (“Por exemplo, alguns líderes mencionaram seus supostos comentários sobre a aparência de sua filha, entre eles: ‘Eu já disse que, se a Ivanka não fosse minha filha, talvez eu namorasse com ela’”) Mas foi um pequeno incidente que fez os evangélicos, segundo várias fontes, rir de Trump: sua recusa/incapacidade de mencionar seu versículo preferido da Bíblia. (Tempos depois, ele apareceu com um, depois de “citar uma passagem sobre não se dobrar à inveja, que aparentemente não existe”). Para muitos líderes religiosos, o fato de ele dizer, de início, que não o revelaria porque era algo “pessoal”, pareceu uma desculpa esfarrapada. (Pense em como é preciso ser desonesto para fingir devoção religiosa e o desprezo pelas pessoas de fé que ele aparenta).
Existem motivos para Ted Cruz e Marco Rubio estarem conquistando o voto evangélico. Em uma ocasião que ficou famosa, Ronald Reagan participou de um comício de evangélicos conservadores em 1980 e lhes disse: “Eu sei que vocês não podem me defender… mas quero que vocês saibam que eu defendo vocês e o que vocês fazem”. Alguém consegue imaginar Donald Trump fazendo um discurso semelhante e realmente ser sincero em relação ao que diz?

Os conservadores norte-americanos sempre defenderam a Constituição e a Declaração de Direitos com baluartes contra a usurpação da liberdade pelo governo. Entre os direitos considerados sacrossantos está o direito à propriedade. Poucos casos nos tempos modernos enfureceram mais os conservadores do que a vergonhosa sentença do processo de Kelo versus Prefeitura de New London. Nesse processo, a Suprema Corte autorizou a prefeitura de New London, no Estado de Connecticut, a usar seus poderes de desapropriação para tomar um terreno de um proprietário privado e dá-lo a outro proprietário privado.

Como o processo transitou em julgado em 2005, ele se transformou num casus belli entre os conservadores, cuja totalidade rechaça a decisão como uma violação dos direitos de um cidadão nos termos da Cláusula de Receitas da Quinta Emenda e da Cláusula do Devido Processo Legal da Décima-Quarta Emenda. Recentemente, pediram a Donald Trump sua opinião sobre o assunto. Ele não viu problema nenhum a maneira como o processo Kelo foi decidido. Afinal de contas, ele é um bilionário que, em outros tempos, se frustrou com proprietários de imóveis que queriam ficar em suas casas em vez de vende-las a ele. Na verdade, Trump tem um currículo de uso indevido de desapropriações na formação da sua fortuna.

Naturalmente, Trump foi um capitalista clientelista em toda a sua carreira de negócios e, portanto, pode aproveitar suas relações políticas para exercer os direitos de desapropriação contra o “cidadão comum” cujo apoio ele agora solicita.

Os conservadores são favoráveis a um governo limitado com restrições aos seus poderes sobre o povo. Os Democratas são a favor de um Leviatã todo-poderoso que reina sobre os norte-americanos. Barack Obama fez uma paródia do sistema constitucional de freios e contrapesos. Os Democratas têm apoiado Obama em sua iniciativa de neutralizar o Congresso e ignorar as opiniões dos norte-americanos, achando que Hillary Clinton seria sua sucessora e o esquerdismo continuaria em ascensão. Kimberly Strassel observou, numa recente coluna intitulada “Sem limites na política”, que Trump parece ter as mesmas opiniões que os Democratas em relação a um caudilho onipotente:
Barack Obama causou muitos estragos ao país, mas talvez o pior deles seja a destruição obstinada dos limites de Washington. Obama quer o que quer. Se o ObamaCare tiver problemas, ele altera a lei unilateralmente. Se o Congresso não quer mudar o sistema de imigração, ele se recusa a aplica-lo. Se o país não apóia leis de combate à mudança climática, ele cria uma lei regulamentada. Se o Senado não ratifica seus indicados, ele declara recesso e os empossa assim mesmo. “Sobre os limites, você cria os seus”, observou Dan nesse editorial. Esse é o lema do nosso presidente.
Obama não precisa que ninguém justifique seus atos porque percebeu que ninguém é capaz de detê-lo. Ele recebe críticas, mas, ao mesmo tempo, sua abordagem se infiltrou na consciência nacional. Ele criou novas normas. Isso pode ser visto nas propostas cada vez mais afrontosas no campo presidencial, especialmente dos pré-candidatos Hillary Clinton e Donald Trump.
Strassel escreve sobre os vários casos em que tanto Clinton como Trump declaram abertamente pretendem ignorar os limites ao seu poder. Essa opinião é, essência esquerdista e Democrata, e Trump é da mesma opinião. Como as pessoas que se opõem a Barack Obama por seu uso indevido do poder podem apoiar alguém que declara abertamente que seguirá os passos de Obama?

Uma última reflexão sobre a questão de Donald ser ou não um Democrata. Há algum outro pré-candidato que tenha feito mais para ajudar os Democratas nessa corrida? Ele sempre busca os holofotes para deixar claro que ele salvou os Democratas inúmeras vezes de escândalos que os prejudicariam gravemente. Seu estilo bombástico de fazer política provavelmente faria com que os Democratas vencessem de lavada em todo o país, desfazendo o enorme progresso conseguido contra eles nos últimos ciclos eleitorais. Se ele conseguir a nomeação pelos Republicanos, todas as pesquisas indicam que Hillary Clinton será a próxima pessoa a ocupar a Casa Branca.

Donald Trump é Democrata? Talvez sim, talvez não, mas ele é um oportunista que dará de mão beijada aos Democratas sua maior oportunidade de eternizar o enorme estrago causado por Barack Obama.

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